Faculdade de Direito da Universidade de LisboaFaculdade de Direito da Universidade de Lisboa

50 Anos de Direito em Portugal. Anatomia de um Sistema em Transição

Evento

Data
19 de março de 2024, 10h
Formato
Presencial

O objetivo destas jornadas é o de analisar e discutir criticamente em que medida o direito acompanhou e perspetivou as mudanças ao longo dos 50 anos de democracia.

No dia 25 de Abril de 1974, arriscando as suas vidas e carreiras, centenas de militares, aos quais se juntou o povo português, partiram para uma revolução, pondo termo à mais longa ditadura na Europa Ocidental.

Uma ditadura que tivera origem numa sublevação militar em que se misturaram diversas inspirações, da monárquica ao conservadorismo mais ou menos autoritário. O regime, que se tinha afirmado depois de várias querelas, mesmo entre inspiradores e autores do golpe de 28 de Maio, acabaria por conduzir à ascensão ao poder de Oliveira Salazar. Salazar exerceu o poder até 1968, seguindo-se-lhe Marcello Caetano, que criou expectativas de democratização que não viriam a concretizar-se. A ditadura assentava na supressão dos direitos cívicos e políticos e era apoiada por um conjunto de instituições destinadas a garantir a ordem e os “brandos costumes”, com relevo para a PIDE, a polícia política, os Tribunais Plenários, totalmente alinhados com a vontade da Polícia, ou a Legião Portuguesa.

No contexto do Estado Novo, como viria a ser designado, era marcante a proibição da liberdade de expressão e de qualquer manifestação política, com exceção para aquelas que fossem promovidas pela União Nacional, o partido único, ou a Mocidade Portuguesa, organização juvenil moldada em instituições do fascismo italiano. Um Estado e uma sociedade marcados pela profunda desigualdade entre homens e mulheres, estando reservada a estas um lugar de subalternidade na vida política e social.

As principais referências ideológicas e políticas tinham, aliás, origem no fascismo em Itália, na Alemanha de Hitler, na Espanha de Franco e em doutrinas católicas como as de Charles Mauras.

A primeira intervenção militar para repor a democracia deu-se em Portugal e foi obra de um conjunto de militares decididos a não permitir a continuação da guerra colonial.

À semelhança do golpe de estado de 28 de Maio, também entre os militares de Abril se juntaram várias sensibilidades, mas todas excluíam a hipótese de soluções ditatoriais.

Foi nesse contexto que surgiu o Programa do Movimento das Forças Armadas, documento fundador do regime democrático e que apontava para um conjunto de medidas de natureza política, económica e social, visando consolidar a democracia, sem esquecer a necessidade de combater a pobreza e a desigualdade social.

Especialmente relevante é o facto de o Programa do Movimento das Forças Armadas anunciar que, após um curto período de transição e das medidas urgentes necessárias para abrir o caminho para um Estado de Direito, e «logo que eleitos pela Nação a Assembleia Legislativa e o novo Presidente da República, será dissolvida a Junta de Salvação Nacional e a ação das forças armadas será restringida à sua missão específica de defesa da soberania nacional».

Se o lema que ficou a marcar o Estado Novo foi “Deus, Pátria, Família”, o do regime saído do 25 de Abril foi o dos “Três Dês”, para que apontara José Medeiros Ferreira: descolonizar, democratizar e desenvolver.

No seio das forças armadas persistiam diferentes sensibilidades, a exigir acordos, muitas vezes difíceis de manter, num contexto em que, entre 1974 e 1976, se sucederam diversos conflitos.

Mas o novo regime afirmava-se pela abertura à democracia quanto às decisões futuras e esta solução implicava um debate aberto, com vista à definição das bases de uma transição jurídica definida pela maioria dos portugueses, através dos seus representantes.

A transição democrática exigia uma profunda transformação em todos os ramos do direito e essa transformação não conheceu ainda uma reflexão global. O objetivo destas jornadas é o de analisar e discutir criticamente em que medida o direito acompanhou e perspetivou tais mudanças ao longo dos 50 anos de democracia que agora se comemoram.

Ao longo de três dias, iremos analisar, em especial, a profunda alteração da Constituição e do regime de direitos, liberdades e garantias, o sistema de justiça da democracia, a entrada de Portugal nas Comunidades Europeias e o direito comunitário, que passa a vigorar em Portugal, a evolução do direito do trabalho, do direito à saúde e à segurança social, do regime económico vigente, com a supressão dos entraves corporativos e a afirmação de um direito assente na regulação e na concorrência, do direito fiscal e das finanças públicas e do controlo dos dinheiros públicos.

Para levar o projeto a bom porto, contamos com um qualificado elenco de juristas, professores e investigadores de diversas áreas do direito, a quem agradecemos a sua associação a esta iniciativa, permitindo-nos traçar uma ampla visão do direito em ação e refletir sobre as mudanças que se verificaram e as que continuam a exigir-se 50 anos após a Revolução de Abril.

Três dias fascinantes se apresentam diante de nós. Seguramente concluiremos que a unanimidade foi rara, mas que muitas foram as pistas abertas e os caminhos trilhados. Este debate seguramente perpassará pelas várias sessões.

PROGRAMA COMPLETO Página de inscrição

CONHEÇA AQUI ALGUNS DOS NOSSOS CONVIDADOS DE REFERÊNCIA

José Tavares - Presidente do Tribunal de Contas

Nuno Cunha Rodrigues - Presidente da Autoridade da Concorrência

Miguel Moura e Silva - Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

José de Faria Costa - Diretor da Faculdade de Direito da Universidade Lusófona

Miguel Prata Roque - Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Nazaré da Costa Cabral - Presidente do Conselho da Finanças Públicas

Nuno Villa-Lobos - Presidente do CAAD

Patrícia Ponte Bastos - Assistente Convidada da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

André Marçalo - Assistente Convidado da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa